Reflexões de um ativista -- Parte 02

Ainda não sei se estou preparado pra enfrentar a segunda parte dessa “série”, mas também não adianta fugir… O que eu sei é que essas reflexões podem não ser condizentes com a realidade (ou com a sua realidade), e que talvez eu esteja exagerando (ou aliviando) nas minhas observações, mas em todo caso eu espero que seja possível para você, querido leitor, traçar alguns paralelos com o seu modo de ver o mundo, e, quem sabe, mudar algo na sua região.

Preguiça

Este ponto relaciona-se mutuamente com os outros dois pontos (que também relacionam-se mutuamente entre si). É claro, tudo está conectado nesse mundo, até mesmo (e principalmente!) os motivos que levam alguém a se desconectar de alguns valores morais e éticos.

Eu vejo pessoas preguiçosas o tempo todo. Às vezes, sou uma delas (por mais que tente me afastar desse comportamento). Mas creio que existe uma diferença entre alguém inerentemente preguiçoso, e alguém que se deixa levar pela tentação da preguiça por conta de algum outro fator. A minha reclamação, aqui, é com o primeiro tipo de pessoas.

O “teste” pra saber se você se encaixa nesse grupo é: quando você se depara com algum problema difícil de ser resolvido, qual seu modus operandi? Buscar soluções, ou desistir? Tentar você mesmo, ou pedir pra alguém? Aprender com seus erros, ou repetí-los ad eternum? Se você não quis nem pensar sobre esse teste, então acho a resposta é óbvia…

Mas o que isso tem a ver com ativismo? Tudo. Ser ativista é, por definição, ter que enfrentar situações difíceis e desanimadoras, platéias apáticas e desconfiadas, pessoas descrentes e alienadas. E isso tudo é absurdamente frustrante, principalmente quando você acredita naquilo que está falando, e sabe que as pessoas que estão ouvindo precisam entender também! Afinal, como eu falei em outro post, a privacidade (mas não só ela!) é um bem coletivo. A manutenção dela depende da compreensão da comunidade sendo espionada.

Em outras palavras, as empresas, entidades e governos que estão lutando para que você tenha cada vez menos direitos não dormem no ponto. Não vai ser muito legal se nós dormirmos…

Só que esse ponto não se aplica somente aos ativistas em si. Obviamente, encontramos (muitos!) preguiçosos (e preguiçosas) do outro lado, na platéia. É sempre bom (e necessário) assumir que as pessoas pra quem você está falando são ignorantes naquele assunto, e portanto precisam ser instruídas minimamente para que possam tomar decisões maduras e inteligentes. No entanto, mesmo depois de serem alertadas sobre vários fatos e consequências dos seus atos, as pessoas ainda assim preferem continuar na ignorância!! Existem vários nomes pra essa “teimosia”, mas eu costumo achar que um dos fatores que contribui pra isso é a preguiça.

Preguiça em levantar da cadeira e procurar soluções que respeitem você e sua comunidade. Preguiça em continuar pensando (ou seja, “sempre alerta”) sobre quais os riscos você está efetivamente correndo quando usa aquela “rede social”. Preguiça em mudar os hábitos. Preguiça em lutar por seus direitos virtuais. Enfim, preguiça.

Preconceito

Esse é um dos pontos mais problemáticos. O preconceito está enraizado nas pessoas, sem exceção. E o preconceito contra ativistas, de qualquer tipo, é evidente.

Ser ativista não é somente acreditar em algo. Ser ativista é principalmente saber de algo, e querer levar essa sabedoria para as pessoas. Obviamente, existem vários tipos de ativismo, mas quando olho pro que eu faço, eu me vejo mais como alguém que sente ser sua obrigação ensinar as pessoas sobre algo que é desconhecido da maioria. Apesar de realmente esperar que as pessoas acreditem nos valores que eu tento passar (e quem não espera?), acredito que meu objetivo principal seja o de “habilitar” a sociedade a tomar decisões conscientes sobre os assuntos que tento “ensinar”.

Algumas pessoas têm medo ou vergonha de me falar que usam Facebook, Twitter, ou algum software não-livre. Mas eu noto que, na maior parte dos casos, o medo delas decorre do fato de elas saberem que eu não “gosto” de nenhum desses itens, e não do fato de elas saberem por que eu não gosto deles. E nesse caso, eu não sinto raiva ou decepção pela pessoa com quem estou conversando, mas sim uma necessidade de realmente explicar o motivo de eu não concordar com a utilização desses programas! Sei que se eu explicar, na verdade eu estarei dando ferramentas pra que a pessoa consiga, ela mesma, decidir se quer continuar usando-os. Essa é minha tarefa, no final das contas. Permitir que o usuário de tecnologia consiga, de forma consciente e ética, escolher o que quer e o que não quer. Mas aí entra o preconceito…

Quando começo a falar, é inevitável usar expressões como “liberdade”, “respeito”, “ética”, “comunidade”, “privacidade”, “questões sociais”, etc. Elas são o cimento pra que eu possa construir meus argumentos, e não creio que palavras ou expressões por si só possam definir um liberal de um conservador, por exemplo. No entanto, o que mais vejo são pessoas que confundem ativistas de Software Livre com comunistas ou socialistas. E como hoje a moda é o conservadorismo, às vezes as pessoas ignoram tudo aquilo que falamos por conta desse preconceito idiota.

Meu objetivo não é discutir sobre se é bom ou ruim ser socialista/comunista (apesar de eu definitivamente não ser “conservador”, e achar esse preconceito absurdo). Mas o que deve ficar claro é que o Software Livre, apesar de ser um movimento político, não é um movimento partidário. Defendemos valores bem definidos, que podem ou não ter a ver com idéias comunistas/socialistas, mas que não advogam a favor desse movimento político. Também é importante mencionar que, por ser um movimento social, é natural que muitas idéias e preceitos defendidos pelos ativistas de Software Livre sejam simpáticos à causa socialista/comunista. Mas isso obviamente não faz com que Stallman seja o novo Stalin (apesar da semelhança dos sobrenomes).

Enfim, o meu pedido para a comunidade em geral é: ouçam a mensagem, independente do interlocutor, e pensem a respeito, independente da sua orientação político-partidária. Aquilo pelo qual lutamos independe de partido, religião, time de futebol, nacionalidade. Depende simplesmente de seres humanos, de uma comunidade que não tem fronteiras, não tem uma única cultura, mas que merece mais respeito. Só que, infelizmente, vamos ter que exigir isso.