A falta de uns Quaresmas

É preciso ter paciência pra viver nesse país. Vejo duas aglomerações que se juntam, misturadas ou não, nesse mar de reclamações.

A primeira, composta por pessoas que reclamam do Brasil, e querem sair do país de qualquer modo. Vislumbram-se diante de qualquer estrangeirismo, viajam para o exterior e voltam querendo viver lá (dizendo que querem aprender uma nova cultura, mas na verdade querendo fugir das terras tupiniquins), espumam de raiva quando falam dos problemas daqui, e, às vezes, sentenciam: esse país não tem jeito.

A segunda aglomeração, que à primeira vista parece se importar com a nação, é a dos que defendem algum partido político. Com os desdobramentos do episódio do mensalão, pipocam pessoas desse tipo. Pode parecer que elas estão interessadas no bem da população, ao concordar/discordar da condenação e prisão dos réus. Ledo engano.

Com o episódio do mensalão, e o desfecho que está acontecendo, é difícil não sentir-se enojado. Mas o motivo do nojo varia… Alguns, com o bico largo, enojam-se comemorando as prisões, independente da legalidade das mesmas, como se fosse um alívio ver que os presos não tiveram um tratamento muito digno. Outros, vermelhos (não só) de raiva, enojam-se com a falcatrua que supostamente está acontecendo desde o início do escândalo, e mais ainda com a prisão injusta (na visão dos mesmos) dos acusados pela corrupção. Já eu…

Eu me enojo de ver os nojos. É meio contraditório, mas eu me sinto no meio de um lamaçal, com porcos atirando sujeira de todos os lados. Às vezes, confesso, fica difícil distinguir quem é quem. E eu já vi cada tipo de sujeira…

De um lado, os petistas e simpatizantes agem, em sua maioria, como se os presos fossem santos sendo apedrejados em praça pública. Já vi pessoas dizendo que o que o PT fez não foi tão grave, ou que tudo não passa de mentira, ou que o PT apenas usou dinheiro privado em campanha (caixa 2, proibido por lei), e que isso não é muita coisa se comparado com o que o PSDB fez (mesmo sem saber dizer direito o que é que eles fizeram).

De outro lado, os tucanos e simpatizantes também agem, em sua maioria, de maneira completamente irracional. Justificam que o PSDB não tem corruptos, e que se tivesse, eles seriam expulsos. Dizem que o PT é o câncer que precisa ser extinto, e não se interessam em olhar pra coisas boas que eles fizeram, afinal, “se é do PT não pode ser bom”. Usam o mensalão como argumento para qualquer discussão, não importando se estão certos ou não. E ainda têm coragem de dizer que, mesmo que o julgamento tenha sido uma farsa, os condenados ainda mereceriam estar presos. Querem justiça, mas do jeito deles.

Eu, que não sou fã de futebol, e abomino qualquer tipo de torcedor (seja desse esporte ou não), sinto-me dentro de um jogo, e não de um país. As torcidas não querem ver um jogo bonito, elas querem sangue. Todos querem que seu time ganhe, mesmo que pra isso seja necessário uma ajuda do árbitro. E nada mais importa caso meu time perca. Fui roubado, o técnico é uma porcaria, o campo estava ruim, tudo aconteceu pra que meu time fosse prejudicado.

Não se deixe enganar: essas pessoas, esses partidários, eles não estão preocupados com o bem do país. Eles preocupam-se com o bem do partido, e apenas isso. Se o partido faz o bem para o país, melhor. Se ele faz algo errado, bem, paciência, nem tudo é perfeito… Isso me lembra das manifestações que ocorreram em Junho/Julho. Na época, a maioria dos que saíram às ruas não queria bandeiras e nem vínculo com partidos. E, enquanto os petistas começaram a taxar isso de “fascismo”, os tucanos se aproveitaram da situação e, tacitamente, infiltraram pessoas nos conglomerados. Na época, não estava claro pra mim quem estava certo ou errado, mas hoje, ao olhar pra trás, vejo que os dois partidos, mais uma vez, só estavam olhando pro próprio umbigo! Extremamente triste…

E, como se não bastasse, vejo-me cercado por pessoas que não valorizam seu próprio país. Óbvio que, para mim, esse tipo de pessoa tem muito em comum com o tipo que descrevi acima, e que vou chamar de “partidário”. A pessoa que quer sair do país, por fora, pode parecer muito diferente do partidário. Ela, muitas vezes, nem partido político tem. Não acredita em muita coisa no Brasil, então prefere não se misturar. Além disso, em geral (mas nem sempre), ela tende a ficar alheia aos acontecimentos políticos, e só opina quando algo grande acontece, criticando indiscriminadamente qualquer político que esteja envolvido (mesmo sem provas). Uma outra característica é que, como atualmente virou moda ser conservador, essa pessoa tende a posicionar-se sempre contra a esquerda, porque, afinal, “comunismo é ruim e ponto”. Mas não é de se estranhar que ela ache isso, afinal, estudar história não é muito o seu forte…

Essa pessoa não conhece muito a história do Brasil. Não aprecia coisas daqui, não ouve música brasileira, não vê ou sente o jeito que o brasileiro tem de lidar com problemas, e não se preocupa em conhecer detalhes da nossa história e, acima de tudo, compara pejorativamente qualquer coisa brasileira. Essa pessoa quer mudar do Brasil, e não se importa em mudar o Brasil.


Reflexões de um ativista -- Parte 02

Ainda não sei se estou preparado pra enfrentar a segunda parte dessa “série”, mas também não adianta fugir… O que eu sei é que essas reflexões podem não ser condizentes com a realidade (ou com a sua realidade), e que talvez eu esteja exagerando (ou aliviando) nas minhas observações, mas em todo caso eu espero que seja possível para você, querido leitor, traçar alguns paralelos com o seu modo de ver o mundo, e, quem sabe, mudar algo na sua região.

Preguiça

Este ponto relaciona-se mutuamente com os outros dois pontos (que também relacionam-se mutuamente entre si). É claro, tudo está conectado nesse mundo, até mesmo (e principalmente!) os motivos que levam alguém a se desconectar de alguns valores morais e éticos.

Eu vejo pessoas preguiçosas o tempo todo. Às vezes, sou uma delas (por mais que tente me afastar desse comportamento). Mas creio que existe uma diferença entre alguém inerentemente preguiçoso, e alguém que se deixa levar pela tentação da preguiça por conta de algum outro fator. A minha reclamação, aqui, é com o primeiro tipo de pessoas.

O “teste” pra saber se você se encaixa nesse grupo é: quando você se depara com algum problema difícil de ser resolvido, qual seu modus operandi? Buscar soluções, ou desistir? Tentar você mesmo, ou pedir pra alguém? Aprender com seus erros, ou repetí-los ad eternum? Se você não quis nem pensar sobre esse teste, então acho a resposta é óbvia…

Mas o que isso tem a ver com ativismo? Tudo. Ser ativista é, por definição, ter que enfrentar situações difíceis e desanimadoras, platéias apáticas e desconfiadas, pessoas descrentes e alienadas. E isso tudo é absurdamente frustrante, principalmente quando você acredita naquilo que está falando, e sabe que as pessoas que estão ouvindo precisam entender também! Afinal, como eu falei em outro post, a privacidade (mas não só ela!) é um bem coletivo. A manutenção dela depende da compreensão da comunidade sendo espionada.

Em outras palavras, as empresas, entidades e governos que estão lutando para que você tenha cada vez menos direitos não dormem no ponto. Não vai ser muito legal se nós dormirmos…

Só que esse ponto não se aplica somente aos ativistas em si. Obviamente, encontramos (muitos!) preguiçosos (e preguiçosas) do outro lado, na platéia. É sempre bom (e necessário) assumir que as pessoas pra quem você está falando são ignorantes naquele assunto, e portanto precisam ser instruídas minimamente para que possam tomar decisões maduras e inteligentes. No entanto, mesmo depois de serem alertadas sobre vários fatos e consequências dos seus atos, as pessoas ainda assim preferem continuar na ignorância!! Existem vários nomes pra essa “teimosia”, mas eu costumo achar que um dos fatores que contribui pra isso é a preguiça.

Preguiça em levantar da cadeira e procurar soluções que respeitem você e sua comunidade. Preguiça em continuar pensando (ou seja, “sempre alerta”) sobre quais os riscos você está efetivamente correndo quando usa aquela “rede social”. Preguiça em mudar os hábitos. Preguiça em lutar por seus direitos virtuais. Enfim, preguiça.

Preconceito

Esse é um dos pontos mais problemáticos. O preconceito está enraizado nas pessoas, sem exceção. E o preconceito contra ativistas, de qualquer tipo, é evidente.

Ser ativista não é somente acreditar em algo. Ser ativista é principalmente saber de algo, e querer levar essa sabedoria para as pessoas. Obviamente, existem vários tipos de ativismo, mas quando olho pro que eu faço, eu me vejo mais como alguém que sente ser sua obrigação ensinar as pessoas sobre algo que é desconhecido da maioria. Apesar de realmente esperar que as pessoas acreditem nos valores que eu tento passar (e quem não espera?), acredito que meu objetivo principal seja o de “habilitar” a sociedade a tomar decisões conscientes sobre os assuntos que tento “ensinar”.

Algumas pessoas têm medo ou vergonha de me falar que usam Facebook, Twitter, ou algum software não-livre. Mas eu noto que, na maior parte dos casos, o medo delas decorre do fato de elas saberem que eu não “gosto” de nenhum desses itens, e não do fato de elas saberem por que eu não gosto deles. E nesse caso, eu não sinto raiva ou decepção pela pessoa com quem estou conversando, mas sim uma necessidade de realmente explicar o motivo de eu não concordar com a utilização desses programas! Sei que se eu explicar, na verdade eu estarei dando ferramentas pra que a pessoa consiga, ela mesma, decidir se quer continuar usando-os. Essa é minha tarefa, no final das contas. Permitir que o usuário de tecnologia consiga, de forma consciente e ética, escolher o que quer e o que não quer. Mas aí entra o preconceito…

Quando começo a falar, é inevitável usar expressões como “liberdade”, “respeito”, “ética”, “comunidade”, “privacidade”, “questões sociais”, etc. Elas são o cimento pra que eu possa construir meus argumentos, e não creio que palavras ou expressões por si só possam definir um liberal de um conservador, por exemplo. No entanto, o que mais vejo são pessoas que confundem ativistas de Software Livre com comunistas ou socialistas. E como hoje a moda é o conservadorismo, às vezes as pessoas ignoram tudo aquilo que falamos por conta desse preconceito idiota.

Meu objetivo não é discutir sobre se é bom ou ruim ser socialista/comunista (apesar de eu definitivamente não ser “conservador”, e achar esse preconceito absurdo). Mas o que deve ficar claro é que o Software Livre, apesar de ser um movimento político, não é um movimento partidário. Defendemos valores bem definidos, que podem ou não ter a ver com idéias comunistas/socialistas, mas que não advogam a favor desse movimento político. Também é importante mencionar que, por ser um movimento social, é natural que muitas idéias e preceitos defendidos pelos ativistas de Software Livre sejam simpáticos à causa socialista/comunista. Mas isso obviamente não faz com que Stallman seja o novo Stalin (apesar da semelhança dos sobrenomes).

Enfim, o meu pedido para a comunidade em geral é: ouçam a mensagem, independente do interlocutor, e pensem a respeito, independente da sua orientação político-partidária. Aquilo pelo qual lutamos independe de partido, religião, time de futebol, nacionalidade. Depende simplesmente de seres humanos, de uma comunidade que não tem fronteiras, não tem uma única cultura, mas que merece mais respeito. Só que, infelizmente, vamos ter que exigir isso.


About coherence, Twitter, and the Free Software Foundation

The Free Software Foundation has a Twitter account. Surprised? So am I, in a negative way, of course. And I will explain why on this post.

You may not agree with me on everything I write here, and I am honestly expecting some opposition, but I would like to make it crystal clear that my purpose is to raise awareness for the most important “feature” an organization should have: coherence.

The shock

I first learned about the Twitter account on IRC. I was hanging around in the #fsf channel on Freenode, when someone mentioned that “… something has just been posted on FSF’s Twitter!” (yes, it was a happy announcement, not a complaint). I thought it was a joke, but before laughing I decided to confirm. And to my deepest sorrow, I was wrong. The Free Software Foundation has a Twitter account. The implications of this are mostly bad not only for the Foundation itself, but also for us, Free Software users and advocates.

Twitter uses Free Software to run its services. So does Facebook, and I would even bet that Microsoft runs some GNU/Linux machines serving intranet pages… But the thing is not about what a web service uses. It is about endorsement. And I will explain.

Free ads, anyone?

I remember having this crazy thought some years ago, when I saw some small company in Brazil putting the Facebook logo in their product’s box. What surprised me was that the Facebook logo was actually bigger than the company’s logo! What the heck?!?! This is “Marketing 101”: you are drawing attention to Facebook, not to your company who actually made the product. And from that moment on, every time I see Coca Cola putting a “Find us on http://facebook.com/cocacola” (don’t know if the URL is valid, it’s just an example) I have this strange feeling of how an internet company can twist the rules of marketing and get free ads everywhere…

My point is simple: when a company uses a web service, it is endorsing the use of this same web service, even if in an indirect way. And the same applies to organizations, or foundations, for that matter. So the question I had in my mind when I saw FSF’s Twitter account was: do we really want to endorse Twitter? So I sent them an e-mail…

Talking to the FSF - First message

I have exchanged some interesting messages with Kyra, FSF’s Campaign Organizer, and with John Sullivan, FSF’s Executive Director. I will not post the messages here because I don’t have their permission to do so, but I will try to summarize what we discussed, and the outcomings.

My first message was basically requiring some clarifications. I had read this interesting page about the presence of FSF on Twitter, and expressed my disagreement about the arguments used there.

They explicitly say that Twitter uses nonfree JavaScript, and suggest that the reader use a free client to access it. Yet, they still close their eyes to the fact that a big part of the Twitter community use it through the browser, or through some proprietary application.

They also acknowledge that Twitter accounts have privacy issues. This is obvious for anyone interested in privacy, and the FSF even provides a link to an interesting story about subpoenas during the Occupy Wall Street movement.

Nevertheless, the FSF still thinks it’s OK to have a Twitter account, because it uses Twitter via a bridge which connects FSF’s StatusNet instance to Twitter. Therefore, in their vision, they are not really using Twitter (at least, they are not using the proprietary JavaScript), and well, let the bridge do its job…

This is nonsense. Again: when a foundation uses a web service, it is endorsing it, even if indirectly! And that was the main argument I have used when I wrote to them. Let’s see how they replied…

FSF answers

The answer I’ve got to my first message was not very good (very weak arguments), so I won’t even bother talking about it here. I had to send another message to make it clear that I was interested in real answers.

After the second reply, it became clear to me that the main point of the FSF is to reach as many people as they can, and pass along the message of software user freedom. I have the impression that it doesn’t really matter the means they will use for that, as long as it is not Facebook (more on that latter). So if it takes using a web service that disrespects privacy and uses nonfree Javascript, so be it.

It also seems to me that the FSF believes in an illusion created by themselves. In some messages, they said that they would try to do a harder job at letting people know that using Twitter is not the solution, but part of the problem (the irony is that they would do that using Twitter). However, sometimes I look at FSF’s Twitter account, and so far nothing has been posted about this topic. Regular people just don’t know that there are alternatives to Twitter.

I will take the liberty to tell a little story now. I told the same story to them, to no avail. Let’s imagine the following scenario: John has just heard about Free Software and is beginning to study about it. He does not have a Twitter account, but one of the first things he finds when he looks for Free Software on the web is FSF’s Twitter. So, he thinks: “Hey, I would like to receive news about Free Software, and it’s just a Twitter account away! Neat!”. Then, he creates a Twitter account and starts following FSF there.

Can you imagine this happening in the real world? I definitely can.

The FSF is also mistaken when they think that they should go to Twitter in order to reach people. I wrote them, and I will say it again here, that I think we should create ways to reach those users “indirectly” (which, as it turns out, would be more direct!), trying to promote events, conferences, talks, face-to-face gatherings, etc. The LibrePlanet project, for example, is a great way of doing this job through local communities, and the FSF should pay a lot more attention to it in my opinion! These are “offline” alternatives, and I confess I think we should discuss the “online” ones with extra care, because we are in such a sad situation regarding the Internet now that I don’t even know where to start…

And last, but definitely not least, the FSF is being incoherent. When it says that “it is OK to use Twitter through a bridge in a StatusNet instance”, then it should also be coherent and do the same thing for Facebook. One can use Facebook through bridges connecting privacy-friendly services such as Diaspora and Friendica (the fact that Diaspora itself has a Facebook account for the project is a topic I won’t even start to discuss). And through those bridges, the FSF will be able to reach much more people than through Twitter.

I am not, in any way, comparing Twitter and Facebook. I am very much aware that Facebook has its own set of problems, which are bigger and worse than Twitter’s (in the most part). But last time I checked, we were not trying to find the best between both. They are both bad in their own ways, and the FSF should not be using either of them!

Conclusion

My conversation with the FSF ended after a few more messages. It was clear to me that they would not change anything (despite their promises to raise awareness to alternatives to Twitter, as I said above), and I don’t believe in infinite discussions about some topic, so I decided to step back. Now, this post is the only thing I can do to try to let people know and think about this subject. It may seem a small problem to solve, and I know that the Free Software community must be together in order to promote the ideas we share and appreciate, but that is precisely why I am writing this.

The Free Software movement was founded on top of ideas and coherence. In order to be successful, we must remain coherent to what we believe. This is not an option, there is no alternative. If we don’t defend our own beliefs, no one will.


Reflexões de um ativista -- Parte 01

Nesse último fim de semana, durante os dias 20 e 21 de Setembro (sexta-feira e sábado, respectivamente), ocorreram dois eventos sobre Software Livre na UNICAMP. Um deles, o Upstream, foi um “evento teste” que ajudei a organizar junto com o Cascardo e o Leonardo Garcia, ambos do LTC/IBM. O outro, o Software Freedom Day (SFD), eu organizei em nome do LibrePlanet São Paulo. Durante os dois eventos (e principalmente durante o SFD) eu fiquei pensando e refletindo bastante sobre vários assuntos relacionados (ou não) com o Software Livre. Resolvi, então, aproveitar a oportunidade e escrever um pouco sobre essas opiniões.

Antes, um breve relato dos dois eventos. Gostei parcialmente do resultado que obtivemos com o Upstream. Acho que a qualidade dos palestrantes foi ótima, e as discussões tiveram um nível muito bom. No entanto, os workshops deixaram a desejar. Pelo pouco que pensei a respeito, cheguei à conclusão de que faltou organização para definirmos os assuntos que iriam ser abordados, e principalmente o melhor modo de abordá-los. Assumo minha parcela de culpa nisso, afinal eu tentei ajudar na organização do workshop de toolchain e ele não saiu do modo como esperávamos. Problemas na infra-estrutura do local também atrapalharam no resultado final. Mas, de modo geral, e levando em conta que essa foi a primeira edição do evento, acho que conseguimos nos sair razoavelmente bem. Certamente já temos muitas coisas pra pensar e melhorar para a próxima edição!

Já sobre o SFD, apesar de várias pessoas muito boas terem participado do evento, a minha impressão inicial (e forte) foi a de que fazer a sociedade se interessar (ou ao menos ouvir, se bem que os dois conceitos são intrinsecamente ligados) por assuntos que são de suma importância para a manutenção (ou, no caso, a restauração) de um Estado que a respeite é mais difícil do que eu pensava. E essa é também a primeira reflexão do post.

Indignação x Ignorância

Há um conflito muito grande acontecendo com as pessoas. Provavelmente ele não é “de hoje”, mas de qualquer modo ele existe e precisa ser resolvido. O conflito, do modo que vejo, pode ser resumido da seguinte forma: “até que ponto eu quero sentir indignação sobre um assunto, de modo que eu não precise necessariamente tomar alguma atitude sobre ele?”. Ou seja, a pessoa opta voluntariamente por permanecer na ignorância parcial, para que ela não se sinta obrigada a tomar uma posição sobre determinado problema que a atinge.

Tomemos o exemplo do Facebook. Alguém que tenha uma conta lá (i.e., “quase todo mundo”) prefere se manter na ignorância sobre os termos de serviço e privacidade que o site possui. Não estou entrando no mérito de operações clandestinas de espionagem; estou falando sobre os textos disponíveis no site do Facebook e que explicam (talvez não de maneira muito clara, mas isso já é outro problema) o que o site faz e não faz a respeito dos seus dados. É uma opção. É mais fácil apenas usar o site, compartilhar imagens engraçadas com seus mil “amigos”, e não olhar para uma questão que deveria ser muito mais importante do que qualquer “like” que possa ser dado.

Não sou sociólogo e estou longe de poder dar opiniões acadêmicas sobre esse assunto, mas tenho a impressão de que o que acontece é um “retardo social” na maioria dos cidadãos deste planeta. Não deixa de ser um paradoxo o fato de que esse comportamento é exacerbado através de uma “rede social”, que se traveste de facilitadora de comunicações entre indivíduos para poder exercer a derradeira função de uma empresa: ganhar dinheiro. É importante frisar que não sou contra “ganhar dinheiro”, mas sou contra vários meios que são usados pra atingir esse objetivo.

No final, o produto somos nós, ou nossa privacidade. E quando eu digo “nós” ao invés de “eles”, é porque eu fiz uma outra reflexão…

Privacidade é um “bem” coletivo

Pode parecer paradoxal à primeira vista, mas pare e pense um pouco. A privacidade é sim um direito do indivíduo, mas quando você opta por não tê-la, você está fazendo essa opção em nome de todas as pessoas que se comunicam com você. Afinal, se você não se importa se alguém está lendo suas mensagens, então qualquer tipo de comunicação que chega até você pode e vai ser lida. E se essa comunicação partir de alguém que preza pela própria privacidade, não vai fazer diferença alguma: a mensagem será lida de qualquer jeito, porque você escolheu isso.

Estou acostumado a ouvir pessoas dizerem que elas não são tão importantes a ponto de despertarem interesse em algum governo para que ele queira espioná-las. “Portanto”, dizem as pessoas, “não preciso me preocupar”. Bem, acho que esse argumento não invalida de maneira alguma o fato de que proteger a própria privacidade é importante. Não interessa o quão público alguém é; se ele não preza pela sua privacidade, ele está abrindo mão de algo que afeta direta ou indiretamente várias pessoas.

O meu ponto aqui é simples. Faça a sua parte e proteja a sua privacidade. Ninguém vai fazer isso por você, mas todos precisam e podem fazer suas respectivas partes. É um trabalho em conjunto, mas que depende da cooperação de todos. Se alguém perto de você não se importar, você provavelmente vai ser prejudicado.


A era da mediocridade

Eles escrevem em paredes. Mas são digitais, dentro de muros ainda mais altos, controlados por uma ou mais empresas, tendo a ilusão de ótica de estarem se organizando por um bem maior, quando na verdade não passam de fantoches. Seja bem vindo ao planeta Terra, ano de 2013, século XXI. Vou falar um pouco sobre o que está acontecendo nesta realidade em que, fortuitamente ou não, estou inserido – mesmo sem participar.

Este post não pretende ser nada além de um post. Não vai ter links, referências, nem nada. É só uma descarga mental.

Eric Hobsbawm provavelmente ficaria em dúvida se decidisse lançar mais um dos seus inestimáveis livros sobre Eras, que falasse sobre esse período que a humanidade está vivendo desde idos da década de 80 ou 90. A dúvida, superficialmente, seria simples: uma palavra que definisse, talvez não de modo unívoco mas ainda assim de maneira contundente, a dita Era. No entanto, se analisássemos a questão de modo um pouco mais profundo, veríamos que as opções para a tal “palavra” seriam muitas, e muito ruins.

Hobsbawm não está mais entre nós. Mas isso não deixa a dúvida menos incômoda. Vivemos várias eras em uma só, a da mediocridade (que foi a palavra escolhida como título do post, mas apenas porque foi a primeira que me veio à mente), a era do egoísmo e do individualismo, a era do descaso, a era da burrice coletiva, a era da falta de compromisso, da falta de interesse, da falta de amor, da manipulação, da vontade de ser manipulado.

Recentemente, no Brasil, estamos vendo manifestações populares pipocando a torto e a direito. Pessoas diversificadas dentro de uma mesma classe média saem às ruas com bandeiras, hinos e muito partidarismo disfarçado. As reivindicações são muitas, de esdrúxulas a absurdas, passando pelo generalismo e falta de argumentos. O que querem esses caras pintadas, esses brasileiríssimos filhos com máscara hollywoodiana gritando frases de propagandas de televisão? Essas pessoas instruídas a colocarem expressões em hashtags em cartolinas? Esses cidadãos exemplares e sociais nas redes?

Acordar, acordar mesmo, é uma expressão muito forte. Há que se tomar cuidado com o orgulho cego que nos lança luzes fortíssimas na cara a fim de nos fazer acreditar que daqui pra frente, tudo vai ser diferente. E essa falsa certeza absolutamente irrefutável, que é cada vez maior quanto mais nos enfiamos nesses meios de comunicação dessa era em que vivemos, é perigosa como qualquer outro dogma inquestionável.

De um lado, já sabíamos há muito tempo que um governo ditatorial como o dos Estados Unidos espiava e ainda espia tudo o que lhe convém. Já sabíamos, mas mesmo assim só vejo pessoas surpresas com essa cortina de fumaça (sim, existe um motivo maior pra essa história toda vir à tona) jogada sobre nós. Parece que precisavam de um nome, e PRISM caiu bem, lembra um pouco aqueles mega computadores de livros de ficção científica, medonhas máquinas que só sabem usar números pra matar. Então agora, já que temos um bom nome, todos aqueles que antes tinham se esquecido da espionagem agora dizem que “deixou de ser teoria (da conspiração)”. Deixou? Já foi? Ou era você que não queria ver? Que se esquecia, porque convinha?

De outro, temos os rueiros, manifestantes que, imbuídos de um espírito que quer lutar por mais justiça e, consequentemente, liberdade, abusam de um Facebook (ou “face”, praqueles que possuem a síndrome de Estocolmo) para organizarem coisas, para combinarem festas, para encontrarem parceiros, para viverem (ou terem essa ilusão). Fantoches, que se colam nas mãos de uma empresa, que não querem sair, criam dependência e subserviência, e assim acham que se tornam mais brasileiros.

No centro, o nada. O vazio. A coisa-nenhuma, amiga inseparável e confidente desses tempos que vivemos. Vácuo e zero se fundem num emaranhado de matéria e anti-matéria. Nenhuma energia se cria, toda energia é consumida e transformada nessa roda-viva teatral que nos leva de volta ao começo do fim. Todos os posts são perdidos, todos os likes são pedidos, todos na rua porque hoje é mais um dia como outro qualquer e diferente de tudo o que já foi.

Quando penso no que éramos e no que nos tornamos, choro por todos os motivos conhecidos e que ainda hei de conhecer. Estamos na descida, e eu ainda não vejo o fundo do vale.